Quem sou eu

Minha foto
Carlos Sidinei
Nascido pobre, fui envelhecendo até ficar jovem. E não vejo a hora de continuar assim. Me dou melhor com os vira-latas. Morei a maior parte da vida numa cidade feia demais. Talvez isso me tenha treinado a ver o belo em pequenas coisas. Não sei qual minha raça, nem preciso saber: sou daqueles que não desistem, e que se fortalecem com a dor. Coisas que me são caras: Ruas depois da chuva, mulheres depois do amor, sol antes de nascer, aves depois do pouso, palavras depois de escritas.
Visualizar meu perfil completo

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

João, professor - 49-09

No geral, guardo poucas boas lembranças dos meus tempos de colégio. Os melhores momentos foram certamente fora da sala de aula, principalmente no bar da esquina (ainda hoje me pergunto como é que eles vendiam cachaça às sete e meia da manhã para guris de 15 anos, como eu era). Criávamos rivalidades fantasiosas, e amizades duradouras. Primeiros e últimos cabaços. Explodíamos bombas nos banheiros, levávamos bomba nas provas. (O meu 2º Grau foi reforçado, feito em quatro anos, [apesar das duas repetências]) Hoje vejo que aquilo tudo não era diversão, mas simplesmente legítimas ações anti-tédio. No sistema escolar vigente não há espaço para questionamento, para ir adiante o negócio é obedecer e aceitar e se conformar, como quase tudo na vida.


Briguei com metade dos professores, a outra metade eu apenas detestava de todo coração. Não, houve uma exceção. João, professor de História. Um cara na dele, não levantava a voz, um tanto tímido. Isso numa primeira impressão apressada. Revelou-se, além de bom professor, um cara interessado no mundo, inteligente, cheio de histórias para contar, sempre vendo um pouco mais além, uma gota de sensatez num mar de mediocridade. Muitos colegas ficavam conversando com ele muito depois da aula. Não era pra menos, seus ensinamentos não se encerravam na porta da sala de aula.


Saindo do colégio, acabei topando com ele algumas poucas vezes. Continuava o mesmo falador calmo, e ouvinte interessado. Soube que ele fora eleito duas vezes seguidas diretor do colégio. Quando passava ali na frente, às vezes imaginava parar e conversar com ele de novo, por que não?


Foi estranho ver a foto dele no jornal hoje na seção “Obituário”.

João Alberto Silva Figueiró 1949-2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Lago


Céu claro


Água escura


Um espelho no lago


Água escura


Céu claro

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Viajando


- O dia apagou as corujas.
- Uma parte de mim viajou com a andorinha.
- Pendurei um quadro no céu.
- Me banho num futuro deserto.
- Ouço uma concha:
O mar está ali com tudo que é seu
Escuto até afogar meus olhos.
- A noite descoloriu os telhados.

Quando penso em dar a volta ao mundo,
me invade a preguiça
Assim, dou um passo atrás e chego ao meu destino.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sentidos

Os labirintos
guardam sussurros
inaudíveis
aos adultos

Os cemitérios
têm mistérios
só visíveis
para os surdos

A distância me ensurdece,
me cega, me emudece
Quero estar perto dos
meus sentidos.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Mudando


Cato as cartas antigas
De ex-amigas
E guardo as dores numa caixa de sapatos

Me livro dos livros alheios
e dos elogios mais recentes

Jogo os brinquedos inúteis no esgoto
junto com os desgostos
Me desfaço das incertezas
e da minha juventude

Limpo a estante
e minha memória

Separo as roupas usadas
e as meias verdades

E organizo
os espaços
para dar lugar a quem chega

terça-feira, 24 de março de 2009

Gafe

Gafe total
faltou uma cadeira
sobrou um comensal

Essas coisas






Essas coisas
Que todos já sabem tão bem
Um dia, quem sabe,
Ainda vou ir além

Insight Matinal

E de repente me dou conta
de que
a solidão
que me acompanhou a vida inteira
era simplesmente
a falta que sentia de você

sábado, 17 de janeiro de 2009

rosasrosa

Não distingo mais as cores
das rosas
Para mim
Todas
são
rosas

apaixão

Tua voz me encanta
Teu sorriso me espanta
Beleza tens de sobra
Tua graça se impõe
Tudo em ti é belo
Tudo em ti é bom
Mas só é de verdade
enquanto dura apaixão

Uma viagem de trem

Calor. A estação central está cheia de pessoas suadas, cansadas e famintas. Me posiciono atrás da linha amarela e aguardo. Há pessoas ao meu lado e atrás de mim. O trem se aproxima, todos ficam excitados, alvorotados. Sinto incômodos empurrões por todos os lados. A porta se abre e tomo posição. Um homem à minha direita tenta passar na minha frente. Coloco firme o cotovelo no seu peito, impedindo sua passagem, Quem ele pensa que é? Cheguei antes!, Ele ainda tenta forçar passagem e não descola do meu braço, mas logo desiste. Quando a porta se abre totalmente, um turbilhão entra no trem procurando bancos como se fossem a própria salvação. Vencedores sentados e perdedores de pé. O único prêmio é um momentâneo descanso. Consigo um lugar num canto, Melhor assim, pois só divido um dos meus lados com alguém, o outro fica junto à parede. O homem cuja entrada retardei com sucesso entra esbaforido, e não encontra lugar. Só agora noto que era um velho. Talvez da idade do meu avô. Me arrependo do que fiz. Imediatamente quero ceder o meu lugar para ele, mas já está longe, e some por trás das cabeças dos passageiros.


Trago um livro à mão. Abro e começo a ler onde havia parado. O calor, o barulho e o constante tremor do vagão não me dão o sossego necessário para a leitura. Fico olhando os rostos dos outros. São todos de feios e feias, sujos e com odores desagradáveis. A maioria traz sacolas plásticas, cheias de coisas esquecíveis. São a massa. Me pergunto porque eu não seria também parte da massa. Não sei a resposta. Me entristeço.

Uma mulher dorme de boca aberta, virada para o alto, como um filhote de pássaro esperando por alimento. Três meninas sentam juntas e um homem seboso esfrega sua perna numa delas. Uma mulher gorda de lábios grossos e pintados, de óculos escuros e cinto de oncinha exibe, no seu decote, mais do que gostaria de ver. Um casal jovem dorme; a filha não.


Olha pela janela, buscando um impossível pôr-do-sol. Numa curva, vejo um cão branco farejando sobre os trilhos. Sinto um leve frear do trem, e nenhum impacto. O cão, agora, mudou de cor. E não existe mais. Éramos nós – a massa – ou ele.

.........

É a última viagem. Da noite, não a minha, Este trem será recolhido ao estacionamento. Pedimos aos usuários a gentileza de colaborar com o operador fechando algumas janelas. Perto da meia noite somos poucos. Todos, até então egoístas, se tornam solidários. Ou estão, num reflexo condicionado, apenas obedecendo a mais ordens? Saio do trem aliviado, fingindo ter sido a última vez.

agrados

A chuva é o aplauso das nuvens
As ondas, lambidas do mar
O tremor coça a comichão da terra
O grito de bravo! é dos trovões
No final. o planeta faz tudo para agradar

EU II

O que ignoro não é
A ciência é o que sei
Se venta, é porque não estou parado
Para eu ser visto existe a luz
Para eu sentir existe a dor
Sou onipresente, não importa para onde eu vá, sempre estou lá
Serei imortal até que me provem o contrário
Atropelo o vazio à minha frente
Pra não deixar dúvidas,
também sou o segundo e o terceiro
Eu sou
Tu sou
Ele sou

Troca

Converso com mendigos mentirosos
Assassinos assustados
Drogados, loucos,
Suicidas incompletos
Divido com eles minha bebida
Em troca me oferecem fumo
E histórias de sobrevivência e dor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Dia de chuva

Dia de chuva

Dia de dor

Andando na rua

sem meu amor

Sem minha chuva

Andando na dor

Dia de rua

Dia de amor

Andando no amor

Sem minha rua

Dia de dor

Dia de chuva

Sem amor

Sem dor

Só a chuva na rua

Ela

Ela era ambígua e pedante

Independente e egoísta

Bonita e arrogante

...foi amor à primeira vista.

1/125

Em frente à casa velha

estendendo a mão

colhendo um caqui

da árvore seca

no inverno italiano

a moça não sabe, mas me conquistou

em menos de um segundo.

Tarde

Compro uma passagem pra anteontem

Me sento no último vagão

Pela janela, deixo tudo para trás

O sol fica azul

Corro em câmera lenta

Colho as mais belas flores murchas do vaso

Arrombo uma porta escancarada

Mas...

Eu não estava mais em você.

Intergaláctico

Te darei o mundo, as estrelas

Você é minha luz, meu luar

Raio de sol que ilumina minha alma

O brilho dos teus olhos, qual cometa radiante,

agita minha galáxia,

aquece minha atmosfera

e se despedaça no meu solo

Teu céu é infinito pra abrigar o meu amor

Me perco no éter do teu ser

Estrela minha, a sua terra natal

É o espaço sideral


Desculpe...é por isso que não queria escrever um poema pra ti...

Você desperta, de uma só vez, todos os meu clichês astronômicos de amor.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Timidez


(para Leiko Gotoda)


Sua timidez me comove
me deu seu autógrafo
só na página nove